A mensagem chega numa terça, 21h40.
"Oi! Amo o trabalho de vocês. Faço parceria com marcas, topa?"
Oito mil e quatrocentos seguidores. Perfil bonito, foto boa, legenda caprichada. Você respondeu que sim. Liberou o plano anual, ela gravou dois Stories, marcou o perfil e sumiu. Foi a terceira esse ano.
Ninguém chegou na recepção falando o nome dela.
Eu te entendo. Já vi isso acontecer em cliente depois de cliente, e quase sempre termina do mesmo jeito: um gosto ruim na boca e a conclusão de que influenciador não funciona.
Mas o problema não foi ela. E também não foi você.
Você disse sim porque parecia de graça. Não era. Você pagou com o plano, com a hora da recepção, com o post que precisou aprovar e com a expectativa que criou na equipe. Só não passou por nenhuma linha da sua planilha.
O que faltou foi nome. Três coisas diferentes usam a mesma palavra, e o mercado inteiro embaralha as três. Influenciador, criador de UGC e embaixador não são três tamanhos da mesma compra. São três compras diferentes.
Nesse texto vou separar uma da outra. E te dar a conta de cinco minutos que eu faço antes de deixar qualquer cliente fechar parceria.
O que você compra em cada um
Influenciador: você aluga a audiência dele. O conteúdo vive no perfil dele. O rosto é dele, a credibilidade é dele, e os dois ficam emprestados à sua marca por um tempo. Paga-se por publi. A relação é pontual ou por campanha. Você está comprando atenção que já existe.
Criador de UGC: você compra a produção, não a audiência. UGC quer dizer conteúdo gerado por usuário. Ele grava como se fosse um cliente comum, entrega o arquivo, e quem publica é você. No seu perfil, ou como criativo de anúncio. Ele pode ter duzentos seguidores. É irrelevante. Ele não é mídia. É fornecedor de conteúdo.
Embaixador: você compra continuidade e associação. Contrato mais longo, exclusividade de categoria, presença recorrente. A pessoa passa a ser lida como parte da marca, não como alguém que fez uma publi. Pode ter audiência grande. Pode ser o atleta da casa que treina com você há quatro anos.
O eixo que organiza os três:
Influenciador
- Audiência
- é o ativo
- Onde publica
- no perfil dele
- Prazo
- pontual
Criador de UGC
- Audiência
- irrelevante
- Onde publica
- no perfil da marca
- Prazo
- por entrega
Embaixador
- Audiência
- ajuda, não define
- Onde publica
- nos dois
- Prazo
- longo, exclusivo
Repare que o número de seguidores não aparece na tabela. Ele não é o eixo. Ele só é a coisa mais fácil de contar, e por isso virou a única que todo mundo conta.
Seguidor não é o ativo. É só o mais fácil de contar.
A conta de cinco minutos que ninguém faz antes de fechar
Quando você aluga audiência, você está comprando mídia. E mídia tem uma pergunta só: quantas das pessoas do outro lado podem comprar de você?
Essa conta não é maldade com ninguém. É aritmética. Um negócio local vende num raio de poucos quilômetros, então faça as contas com um perfil de 50 mil seguidores:
- 50.000 seguidores espalhados pelo Brasil
- 4% na sua cidade = 2.000 pessoas
- metade fora da sua faixa de idade = 1.000 pessoas
- alcance médio de 20% dos seguidores por post = 200 pessoas veem
Você não contratou um perfil de 50 mil. Contratou um perfil de 200. Com preço de 50 mil.
O mesmo vale sem geografia nenhuma. Um perfil pode ter alcance enorme e mesmo assim ter alcance zero para você, se a audiência dele não compra a sua categoria. Cerveja anunciada para quem não bebe cerveja continua sendo um número grande no slide. E zero na recepção.
Antes de qualquer conversa sobre preço, peça três prints:
- Principais cidades do público. Fica em Perfil, Painel profissional, Público total.
- Faixa etária e gênero do público. Mesma tela.
- Alcance dos últimos 10 posts. Alcance, não seguidores. É o único número que diz quantas pessoas de fato viram alguma coisa.
Quem trabalha com isso a sério manda em cinco minutos, e manda com orgulho. Quem enrola já te respondeu.
"Mas conta pequena engaja mais"
Engaja mesmo. O dado existe. A Later, junto com a Fohr, olhou 3,5 milhões de posts do Instagram e achou 4% de engajamento nos perfis de até 10 mil seguidores contra 1,3% nos de meio milhão. O levantamento é de 2021, e a direção segue sendo repetida até hoje.
Só que taxa de engajamento é uma divisão. E embaixo dela tem um número pequeno.
Quem tem mil seguidores bate 4% com 40 reações. Quem tem 500 mil precisa de 20 mil reações pro mesmo 4%. Uma tarde boa resolve o primeiro caso. O segundo é campanha nacional. Não é que a conta pequena engaja melhor. É que ela divide por menos.
E tem o buraco maior: engajamento não é compra. Procurei estudo sério ligando taxa de engajamento de conta pequena a venda medida. Não achei. O que existe é muito material de agência e de plataforma repetindo o mesmo número, sem ninguém publicar a metodologia. Quando um dado circula por dez blogs e nenhum deles linka a fonte, costuma ser porque não tem fonte.
Nada disso torna a conta pequena inútil. Torna ela mal vendida. Ela está na prateleira errada.
A conta de 200 seguidores não é uma influenciadora ruim. É uma produtora de conteúdo que ninguém contratou direito.
Onde cada um realmente serve
Criador de UGC: quando você precisa de volume de criativo. A Meta tirou boa parte da decisão de entrega da mão do anunciante, e o peso caiu no criativo. O Daniel destrinchou essa mudança em orgânico vs. ads. Na prática, ela muda o que você precisa comprar: não é audiência emprestada, é quantidade de vídeo bom para testar ângulo. Oito vídeos de oito pessoas comuns valem mais que uma publi de um perfil grande. E custam menos.
Os seus melhores criadores de UGC provavelmente já são seus clientes. A pessoa que treina com você há dois anos filma o depoimento mais convincente que qualquer perfil contratado, porque ela não está atuando. Não precisa nem chamar de parceria. Chame de sessão de gravação, pague pelo material, e combine por escrito que você pode usar em anúncio. Esse último ponto é o que quase todo mundo esquece, e é o que trava a campanha depois.
Embaixador: quando a associação vale mais que o alcance. Aqui a pessoa vira parte da marca. O aluno que treina há quatro anos, o atleta da casa, a cliente que já indicou 12 pessoas. Exclusividade de categoria é o padrão do mercado: nada de concorrente direto durante o contrato, com uma janela de 30 a 60 dias depois que ele termina. Escreva isso no papel antes de começar, não depois.
Influenciador: quando a sobreposição fecha. Aí sim é mídia, e mídia se compra olhando número. Não o número de seguidores. O número de pessoas alcançadas que podem virar cliente seu. Se essa conta não fecha, o resto da conversa não importa.
Por que o mercado embaralha os três
Não é má-fé. É que vender alcance é mais fácil que vender sobreposição.
Alcance tem número grande e cabe no slide. Sobreposição dá trabalho, exige pedir print, e às vezes termina com a resposta de que não vale a pena fechar. Nenhum intermediário ganha dinheiro te entregando essa resposta.
A medição também não ajuda. O criador entra cedo na jornada, muito antes da compra, e a atribuição de último clique dá o crédito para o que aconteceu por último. O trabalho dele quase nunca aparece no relatório. É o mesmo buraco que o Daniel abriu em UTM não mede o que vende. Vale a leitura antes de julgar uma parceria pelo relatório.
E sim, esse texto aqui também é marketing. A gente sabe disso. A diferença é que ele te deixa com a conta na mão para fazer sozinho.
Vender alcance é fácil. Vender sobreposição dá trabalho.
O que fazer segunda-feira
- Nomeie o que você já comprou. Liste as parcerias dos últimos seis meses. Ao lado de cada uma, escreva audiência, produção ou continuidade. As que você não conseguir classificar foram compras de esperança. É normal. Todo mundo tem algumas.
- Peça os três prints antes de falar de preço. Cidades, idade, alcance dos últimos 10 posts. Faça a conta de cinco minutos. Você vai recusar mais e se arrepender menos.
- Escolha um só para começar. Ou um criador de UGC produzindo seis vídeos no mês, ou um embaixador com contrato de seis meses. Não os dois no primeiro mês. Rodando os dois juntos, você não vai saber qual funcionou.
Com um criador, isso é gerenciável no caderno. Com oito, deixa de ser. Briefing, direito de uso, janela de exclusividade, calendário de teste de criativo e um jeito de saber o que vendeu. Aí virou operação, e operação sem sistema volta a ser esperança com mais passos.
Onde a Oitavo Café entra
Montar e rodar essa operação de criadores é parte do que a gente faz no Doppio. Quem entra e por quê. O que vira criativo de anúncio, o que vira presença recorrente. E a medição que separa o que trouxe cliente do que só trouxe visualização. Pensado pra quem já fatura R$50k+/mês e não quer mais fechar parceria no feeling.
Se você prefere aprender e aplicar no seu ritmo, sem alguém te buscando todo dia, o Expresso entrega o método em 5 pilares (Mentalidade, Estrutura de Marca, Estratégia de Vendas, Social Seller, Alavanca). É o caminho pra profissionalizar antes de contratar implementação assistida.
Os dois atacam o mesmo problema. A diferença é o tamanho do salto que você tá pronto pra dar.
Você não precisa de mais um perfil bonito marcando a sua marca. Precisa saber qual das três coisas você está comprando antes de assinar. Audiência, produção ou continuidade. Depois disso, a conversa sobre preço fica bem mais curta.
Com café, sem açúcar.